sexta-feira, 15 de julho de 2011

Os olhos do Dudu

No país, a falta da cultura de se consultar médicos especialistas como oftalmologistas e otorrinolaringologias faz com que muitas crianças tenham de conviver na fase adulta com problemas simples que poderiam ter sido solucionados mais cedo.
Meu filho, então com 5 quase de 6 anos foi à sua primeira consulta a um oftalmologista e nele foi diagnosticado amblíope. Seu olho esquerdo não transmitia as informações para o cérebro.
Oito meses depois, com uso correto das lentes e oclusor 24h no olho direito (o olho bom), nos deparamos com sua quase cura.
Faço este alerta de mãe para mãe: não espere o pediatra indicar. Consulte os dois especialistas.
No caso específico dos olhos, o problema é simples, mas quanto antes for diagnosticado, maiores são as chances de reversão.
A médica de meu filho não teve a mesma sorte e hoje vê com apenas um dos olhos completamente.
Não foi fácil. Muito choro para colar o adesivo (oclusor) que era aplicado de forma a cobrir completamente o olho e não na lente dos óculos como estamos acostumados a ver.
O riso da turma na escola, a tristeza por não poder participar de algumas atividades, as perguntas das outras crianças quando saíamos o olhar de horror de alguns adultos imbecís. O cansaço e a irritação constantes por ter de passar por isso.
Eu, escondida, chorava seu sofrimento em lágrimas que não tinham consolo. Ele estava sofrendo e muitas vezes me acusava de lhe causar esta dor.
Eu era firme, aguentava, mas quando ele se afastava, a culpa me torturava e as lágrimas vinham. E eram muitas.
Horas nas recepções dos consultórios, médicos picaretas que não definiam o diagnóstico. Meu tempo acabando, mesmo porque somente até os sete anos pode-se reverter. Depois disso é muito difícil.
Ano de alfabetização. Achei que ele o iria perder. Conformei-me com isso. Saber de sua recuperação era o mais importante para mim, mas lá foi ele.
Uma vontade feroz de aprender, de superar de saber ler e escrever. E ele o fez.
Seu desempenho na escola é brilhante para o mínimo que uma mãe pode classificar.
Ele lê e escreve com maestria e hoje até preparou sua pipoca no microondas sozinho: E S T E L A D O P A R A C I M A...leu ele.
Filho, será que quando você crescer, lendo este texto, vai saber o quanto você foi forte?
William, que todas as vezes que sentir-se derrotado, filho, saiba que você é insuperável, que com apenas seis anos, você venceu um imenso desafio que muitos adultos não teriam coragem de enfrentar.
Teria sido mais fácil se fosse menor, mas com a sua idade, seus amigos malvados, aqueles que você chama de amigos, rindo e excluindo você das brincadeiras...Filho, saiba que todas as suas lágrimas secaram, e que todo seu esforço não foi em vão. Sua visão é para sempre e esses momentos de dor e aflição serão deixados para tráz.
Você tem asas, querido. Asas com os nomes Determinação e Coragem.
São o par que jamais o abandonará.
Amor, mamãe.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Resumindo...

terça-feira, 28 de junho de 2011

Às Mães da APAE



Estive hoje com seu filho.
Um pequeno ponto de luz no universo, mas ainda assim, dono de uma luz imensa que irradiava de suas mãos, braços, olhos... Fiquei extasiada com tamanha luz e dimensão de sua força e poder.
Um poder transformador de olhar para trás e agradecer meus passos.
Ainda mais poderoso fazer-me olhar para você e agradecer.
Agradecer seu amor, sua doação, sua presença constante ao lado deste ser de luz.
Quero dizer-te, mãe, que és a mais poderosa das criaturas. O ser mais incrível deste pequeno planeta e que seu amor, sua dimensão e desprendimento não cabem em ti.
Obrigada querida mãe, por ser o rosto de uma natureza imperfeita aos olhos de nós leigos, mas soberanamente perfeita aos olhos do Criador.
Obrigada querida mãe, por toda sua vida de negação, de abandono das suas vaidades, de solidão incompreendida muitas vezes por aqueles seres sem noção de sua luta para que seu filho pudesse continuar brilhando.
Obrigada querida mãe, por abrir mão de seus sonhos e de suas ilusões mundanas para abraçar a única coisa que vale a pena nessa vida: seu filho.
Obrigada por poder proporcionar a mim, ignorante mãe, a companhia de seu iluminado filho.
Que o Criador possa sempre, a cada entardecer, tomar-te nos braços e dar todo o carinho em dobro. O mesmo carinho que transmite àquele a quem Ele confiou.
Que em Seus braços possa adormecer cada noite com a sensação de missão cumprida. Que sua força se renove a cada entardecer e que cada amanhecer possa lhe trazer esperanças de um novo dia, mesmo que seja para doar e nada receber.
Amo você. Cada mãe anônima e por mim desconhecida que permitiu que eu estivesse hoje com seu filho.
Desejo que mesmo em silêncio, você consiga traduzir o “Eu Te Amo” de suas vozes mudas. Que você possa sentir o abraço de seus braços inertes. Eles existem. Sim. Todos os beijos, palavras e gestos estão ali. Apenas não os podemos, muitas vezes, sentir.
Que seu amor sirva de exemplo à humanidade e que cada um de nós possa reconhecer em ti, a verdadeira maternidade.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Queria dizer que sinto sua falta.



Queria dizer que estou muito p...da vida por fazer o que fez.
Não dava para esperar? Agora que ferrou com tudo eu vou ter que esperar mais só os deuses sabem quanto tempo e você talvez ainda mais, mesmo porque talvez reencarne em um outro país e eu tenha que esperar mais 100 anos ou 200 pelo nosso reencontro.
Sacou o que fez? Vc tem consciência da imensa m.. que fez?
Eu fico aqui com um ódio de você e de suas atitudes infantis e inconsequentes que destruíram quaisquer possibilidades de reencontro.
Eu queria gritar ao invés de chorar. Queria poder te esmurrar até que minhas mãos doessem pela sua falta de dignidade e esperança.
Eu sei o que fez. Eu sim sei o que fez. Não importa os que os jornais dirão ou o que a tv mostrará, se é que vai mostrar. Você é um menino mimado que a dor não conseguiu endireitar.
Um estúpido espírito que vai vagar por muito tempo perdido entre brumas que eu não posso alcançar.
Ninguém nunca vai contar nossa história? Ninguém nunca vai conseguir confirmar nada do que sei? Nunca, jamais vou saber se estou louca ou se você realmente fez parte disso tudo?
Poderia ter me dado uma chance. Pequena, mas que eu saberia aproveitar.
Estúpido egoísta!
Fico aqui pensando, sofrendo e tentando relevar, superar. Impossível.
Presa nesse mundo esperando só os deuses sabem o que. Querendo respostas que jamais terei e ter que conviver com essa verdade é cruel demais.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

E lá se vai mais um. Abrindo caminho entre as brumas.

De doze, agora restam cinco. Uns em festa, outros tristes.
Para sempre vou me lembrar dele. Nas férias, quando morávamos no Rio de Janeiro, ele foi nos buscar no aeroporto em são Paulo para, de carro, irmos até Botucatu.
Passávamos as férias lá.
No caminho, a brasa do cigarro dele voou queimando meu lindo vestido rosa novo e queimando meu dedo. Tenho uma enorme cicatriz no indicador esquerdo.
Ele era o tio da bagunça, o tio dos churrascos, aquele que queria sempre receber e como sabia fazer bem isso. Um homem preocupadíssimo com todos. Carinhoso, feliz.
A maior parte da infância passávamos na casa dele, ou no carro dele indo para algum lugar ou ainda vendo-o preparar o porco assado que minha avó gostava, ou a linguiça para as crianças que parece até hoje, só ele sabia fazer do jeito que gostávamos.
E lá se vai mais um...

quarta-feira, 9 de março de 2011

A lagarta e o brócolis

Quarta-feira. Metade do dia feriado e a outra metade normalizada depois do Carnaval.
Inicio o almoço cedo, mesmo porque tenho visita externa à tarde.
Decido o que fazer e enquanto vasculho a gaveta de legumes e verduras, acho um delicioso maço de brócolis.
Estou tentando fazer o Will comer de todas as formas, até inventando historinhas pitorescas, mas até o momento: nada.
Saco o pezinho do plástico, corto o elástico e começo, distraidamente a lavar as flores.
Ahhhhhhhhhhhhh!!!!!! Victoriaaaaaaa!!!!!
Uma lagarta nas folhas. Detesto lavar verduras. Na verdade, o que detesto é encontrar criaturas hortifruti nas MINHAS verduras.
Vivi me garante que ela está morta, afinal, estava na geladeira desde segunda.
Continuo, com pavor, a lavar as folhas, segurando-as pelas bordas e encostando o mínimo possível meus dedos na bendita.
Olho para a pobrezinha em cima da pia e decido empurrá-la ralo abaixo. Está morta mesmo, não é? Mas, ao fazer isso, a criatura se mexe.
Ahhhhhhhhhhhhh!!!!!! Victoriaaaaaaa!!!!! Ela está viva!!!!!!!! Que nojo!!!!!!
Olho a pobrezinha, agonizando e fico com dó. E se eu salvá-la, onde colocar? Na minha horta para ela comer tudo? No jardim do prédio... mas ainda estou de pijama...
Bem, talvez seja de uma borboleta. Concluo para criar coragem.
Pego uma folha, acomodo a pequenina e a levo para minha horta. Mesmo que ela coma tudo que tenho plantado lá, isso é um ciclo que me recuso a quebrar. O ciclo da vida.
Ela mal se mexe. Será que meus gritos a traumatizaram?
Juro que não consegui comer o brócolis e somente hoje, não pedi para que pequeno comesse Tb.
A lagarta? Está lá. Já se mexeu e agora descansa à sombra da folha de brócolis que serviu de transporte para eu deixá-la lá.
Tomara. Tomara mesmo que ela seja uma borboleta.

sexta-feira, 4 de março de 2011

O Assalto

Por sorte ou uma imensa proteção dos deuses eu nunca fui assaltada.
Furtada sim. Por uma empregada que levou as poucas, mas estimadas jóias que eu tinha e ainda saiu de vítima e com todos os direitos trabalhistas pagos. Infelizmente nada pude fazer a respeito.
Hoje, saindo da escola, o pequeno esqueceu a varinha que ornamentava sua fantasia de Harry Potter. Dei meia volta, mesmo porque, fiquei com receio que minha obra de arte fosse jogada no lixo depois do feriadão de Carnaval.
Parei o carro na rua lateral e pedi para o guri descer e ir buscar. Enquanto isso aconteceu, observei uma movimentação super estranha em um carro parado a cerca de 50 metros do meu.
Dois motoqueiros, com os capacetes, entravam e saiam do carro.
Quem me conhece sabe que sou super distraída. Não reparo nas coisas, mas tenho protetores e eles são atentos.
Fato. Era um assalto. Os motoqueiros subiram na moto, após abordar o casal e passaram ao lado do meu carro, subindo a rua em rumo incerto.
Fiquei apavorada.
Um assalto na porta da escola!
Eis que o guri chega na sequencia com sua varinha e eu, mais branca que papel, meto o guri no carro e saio.
Ao passar pelo casal, o homem sentado na calçada, chorava muito e dizia: “eu sabia que isso ia acontecer”.
Fico pensando em que mundo estou criando meus filhos. Vivi ainda me pede para ir à pé com os amigos de volta para casa.
Sabe quando isso vai acontecer? Nunca!
Senti-me frustrada em não ter feito nada. A falta de humanismo e nossos medos permitem que estejamos cada dia mais à mercê da má sorte.
Juro que não consegui nem almoçar. Azedou o dia.
O homem, sentado na calçada, chorando, acabou comigo, aliado, é claro, ao medo e à inconformidade de ver a cena na porta de uma escola.
Não sei dizer se era pai de aluno, ou se estava sendo seguido após uma visita ao banco.
Eu podia ter parado o carro, ido lá, falado com eles, mas estava sozinha com o Dudu e muito apavorada.
Podia ter jogado o carro para cima da moto em uma inútil tentativa de render os bandidos, mas e se tomo um tiro e deixo meus pequenos órfãos de mãe? Ou pior, fico tetraplégica dando trabalho até o fim dos dias?
Juro que o que mais está me entristecendo foi não ter feito nada. Nada com nada e, após ter visto tudo, continuei sem fazer NADA. Por medo, por choque, por indignação, seja lá o que for.
Nunca fazemos NADA.
A cada dia nos distanciamos mais dos humanos e nos olhamos como estranhas criaturas que são apenas semelhantes e não da mesma espécie e dignas de nossa solidariedade.
Ao senhor e senhora assaltados: perdoem por ter feito o mesmo que todos que viram a cena. Nada. Perdoem eu estar tão condicionada como meus semelhantes e não ter feito NADA.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Um dia difícil

Hoje foi um deles. Não sei se pelo fato de não dormir direito há três dias, preocupada com as adversidades que a vida vem me apresentando nos últimos meses, não sei se pelo fato de eu ter que levar as crianças na escola o que me obriga a um esforço mental imenso logo nas primeiras horas da manhã, ou se porque é segunda-feira, mas foi um dia difícil.
Um dia nublado onde as ideias e ideais se confundem e nada parece fazer sentido. Nada parece sair do lugar, algemado e indeciso.
O mar da rotina precisa ser navegado, mas nunca sem bússola e ela vem me fazendo falta há algum tempo.
A bússola decidiu se esconder e ajudar outros navegantes.
A grande dificuldade é ter de decidir tudo sozinha e rápido. Não tenho tido muito tempo para refletir precisamente. Tenho agido por impulso e isso me traz profundo desconforto.
As decisões de hoje vão ser sentidas amanhã e não sei se estou caminhando no sentido certo.
Talvez esteja só cansada, ou não controlando as divagações e devaneios, mas foi um dia difícil. Decisões difíceis, trabalho difícil, emoções à flor da pele.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Autumn Leaves



Ouvi esta musica hoje e não me lembrava da letra.
Talvez ela seja a mais perfeita tradução de como estou, de como o tempo passou e de quanta saudade sinto, ainda mais agora, quando finda o verão e sua estação preferida se aproxima.
E assim, no outono, fará um ano que você partiu.
Saudades.
Fique bem.
Amor.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A Janela

São Paulo, 16.01.2011 às 3h45






Lembro-me menina quando uma noite em que simplesmente não conseguia dormir.
Eu Devia ter meus 8 ou 9 anos pois foi logo que nos mudamos para um apartamento na Abílio Soares onde morei até me casar em 97.
O tempo estava muito frio e, no escuro, me levantei criando coragem frente ao desconhecido e temido imóvel ainda não desvendado o encanto.
Tateei a luz do corredor que covardemente acendi por medo do escuro.
Meu destino era a cozinha ou sei lá onde. Talvez um copo de água para abrandar a insônia.
Meus pés, nus, tocaram o carpete da sala e antes que acendesse mais uma lâmpada, eu a vi.
Fiquei petrificada frente à beleza da cena. Da grande janela da sala no ultimo andar do prédio, a lua mostrava-se tamanha como eu nunca vira antes.
Seu reflexo beijava a vidraça e se espalhava pelo chão criando um tapete prateado onde me sentei para contemplá-la.
Ali fiquei por horas até que o sono voltasse.
Eu nunca mais fui a mesma depois daquele dia. Sabia que em noites frias e de lua cheia, eu teria esse momento mágico e assim passava meus introspectivos e reflexivos invernos.
Ainda hoje, quando pousamos na casa dos meus pais para as visitas, sendo inverno e havendo lua cheia essa cena se repete. E lá estou eu, pode acreditar hoje tendo a companhia do cuco que era do meu avô.
Ali sentada volto a ser criança e a cada noite maravilhada como na primeira vez.
Foram e ainda são anos maravilhosos e madrugadas incríveis amparadas por ela.
Todos os segredos revelados, lágrimas derramadas a cura de todos os males.
Eram momentos só meus em um devaneio da minha existência.
A testemunha do passar dos anos, de minhas rugas e sobrepeso.
Não me lembro se houve oportunidade de mostrar essa cena para a Victoria, mesmo porque ela não acorda facilmente e o William depois não ia querer mais dormir.
Sei que ela surge como se estreasse em um espetáculo e, vendo as luzes de outros apartamentos apagadas, creio ser a única pessoa a contemplá-la na platéia.


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Deixei uma camisa

Deixei uma camisa para lavar depois que você chegar.
É uma forma de sentir seu cheiro, te reter em meus braços e poder sentir o abraço e o conforto que só em teu peito sinto.
Deixei uma camisa e nela me agarro como um náufrago a um pedaço de madeira.
O seu cheiro está lá. Na camisa que deixei para lavar, somente quando você chegar.
Deixei uma camisa para lavar, mas somente depois que você chegar...

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O garoto



Ninguém jamais vai entender isso, mas William pediu para voltar.
Foi alto, claro e em bom som.
Estava sentada no chão em um dos quartos da casa onde morava. Era meio da tarde e o sol refletia nos armários deste quarto que não usávamos para quase nada.
Era como uma sala de bagunça. Eu estava ouvindo musica, essa musica do Marcus e de repente, ouvi sua voz.
Na mensagem, ele me pedia que permitisse sua volta. Que lhe desse nova chance para um recomeço ao nosso lado.
Eu, surpresa, prometi que lhe daria quando houvesse oportunidade. Para nós, naquele momento era quase impossível.
Passei a sonhar com ele e a achar que se tratava de Angus, presente em minhas memórias em uma outra história que depois eu conto.
Os anos se passaram e, quando visitei este apartamento pela primeira vez, do qual hoje sou feliz proprietária, olhei cada quarto em um total de quatro e imaginei aquele garoto brincando em um deles. Lembrei do pedido e da promessa. Da emoção em conflito com a razão em minha vida.
Olhei cada janela e o parquinho onde ele poderia brincar ao meu lado.
Senti desesperada suas mãozinhas e comecei a chorar. Ele nada mais me pediu, exceto naquele dia, naquela hora e naquele momento, há anos atrás.
Quando decidimos comprar o apartamento que ganhamos do papai, o processo de compra demorava demais. Estávamos achando que perderíamos o imóvel porque o corretor não se mexia.
Ingressei no apartamento para mais uma visita e no banheiro da suíte, admirando suas belas torneiras eu pedi a ele que me ajudasse a conseguir o imóvel. Ele disse que se um dos quartos fosse dele, que daria tudo certo.
E assim deu. O ano era 2003 e em março de 2004 trouxe ao mundo meu filho que dia 1 de dezembro completará seis anos.
Ali está seu quarto, seus brinquedos, como eu havia visto. Ele está brincando lá fora como eu previ, no parquinho.
O que jamais poderia prever era receber tanto amor.
William é o grande desfecho de uma ópera. O momento máximo de uma existência. O equilíbrio de uma vida.
Seu amor fácil, sua gentileza, sua doçura, inteligência. Ele é único e ele me escolheu. Entre tantas pessoas melhores, ele me escolheu. Não importando pelo que fosse passar, sofrer ou viver, ele me escolheu.
Entre tantas mulheres maravilhosas e doces do mundo, ele me escolheu.
Olhar meu filho a se desenvolver hoje é umas das coisas mais lindas que posso presenciar.
A honra de ter sido por ele escolhida, jamais poderei explicar.
Preciso dele como do ar e hoje não consigo compreender como pude esperar tanto.
Querido,
Espero fazer juz a todo esse amor e confiança. Espero ser digna de suas escolhas. Quero dizer, meu filho, que você também foi o grande bater de asas de minha vida.
Que meu amor por você é para muitas vidas e que sempre ouvirei você.
Não importa onde eu estiver eu sempre ouvirei e estarei com você.
Não haverá distâncias, medos, nada que nos separe por toda eternidade. E quando eu estiver velhinha, não precisa cuidar de mim como prometeu. Pode ficar com os seus. Eu entenderei, mesmo porque eu viverei e vivi minha vida toda para trazê-lo e receber de ti todos os abraços do mundo a cada manhã. São momentos mágicos que nunca, jamais poderiam ser comparados ou substituídos.
Te amo, meu querido. Para sempre. E sempre, é um tempo muito grande para você hoje compreender, somente quando estivermos em outro plano, juntos de novo, poderá entender que ‘para sempre’ é tempo demais para muitos, mas segundos para o tamanho do amor que sinto.
Te amo. Mais do que posso.
Sua mãe.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

É fim de tarde



Lá se vai mais um dia. O sol deu lugar a uma nuvem negra da tempestade que se aproxima.
O vento derruba dois vasos na varanda. O lírio e a chicória da horta do William que está em um recipiente separado porque cresceu demais. Talvez ela saiba que por ele, jamais será comida.
Insisto em escrever, apesar dos vasos.
Olho pela janela e vejo o céu em um fim de tarde que muitos achariam insano gostar, mas gosto.
Quando a tempestade se aproxima, parece que olhamos para dentro e nossos pensamentos dirigem-se à concentração absoluta do silêncio deles.
As lágrimas vêm como se fossem convidadas a presenciar esse momento.
A música toca no fone de ouvidos, mesmo porque exigiria uma concentração absurda por causa do volume da televisão da sala de tv.
Introspecção. Assim fico quando vem a chuva. Em um momento de pura introspecção e reflexão.
Imagens, ideias, vontades, ilusões...tudo vem ao meu encontro nessa hora.
Meus dedos correm pelo teclado a uma velocidade de sentimentos e não de raciocínio.
Sinto paz.
Então a chuva chega e seu som pela vidraça é mágico.
Parece que sinto o pisar na relva molhada e sinto a chuva no rosto dos meus tempos de criança. As poças d água, os barquinhos na enxurrada, o permanecer sob a calha como se fosse uma cascata. Os pés no chão e a alma limpa.
Assim fico quando vem a tempestade. Com uma nostalgia e doces lembranças de um passado que não volta mais. Esse seria um dos momentos que reviveria se pudesse.
Chegar na Dada e levar aquela bronca da minha avó e depois tomar um café com Arak para não pegar um resfriado.
Para quem não sabe, o Arak é uma bebida árabe. Uma espécie de pinga/cachaça feita com anis, ou melhor: destilada da tâmara ou uva, aromatizada com anis dentre outras especiarias (Wikipedia).
Lembro as roupas molhadas no banheiro, esperando que alguem as recolhesse tamanha sujeira de barro e terra de nossas brincadeiras e tardes na rua e na chuva.
A vontade que dá é de sair correndo ao encontro da tempestade e lavar tudo o que me angustia. Liberar no meio da rua meus medos, ansiedade, insegurança e ao fazer isso, soltar o grito da abolição dos grilhões desta energia ruim que fica sempre ao redor.
Já que não posso viver isso, eu imagino que vivo. É claro que não é a mesma coisa, mas vale.
Pegar um filho em cada mão e sair correndo, gritando e rindo e nesse momento reviver toda a magia de anos atrás.
Mas, meus filhos nunca tomaram chuva, nunca subiram em árvore, nunca puseram um barquinho na enxurrada...
Ainda dá tempo de reverter isso e assim, quando eles forem adultos, poderão aliviar suas angustias imaginando em um dia como esse, fazer a mesma coisa que eu fazia quando criança, depois com eles e eles com os filhos deles em um ciclo eterno.
Bem vinda mãe chuva!
Que apesar do teto e da vidraça que me prendem aqui, meu espírito possa para sempre voar livre com você. Que sempre ao te receber eu possa ouvir minha avó, meu riso e a água que corre.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Eu não sabia.

Sinto muito. Eu não sabia.
Não senti, não percebi, não li...eu não sabia.
Curiosamente foi no dia anterior ao da tatuagem. Curiosamente, estava tão cheia de problemas que não pude perceber a tênue coincidência. Ou seria grande coincidência?
Espero que você não esteja brincando de novo, porque estou muito, muito triste com a confirmação de que não nos encontraríamos nesta vida. Dura verdade que hoje sangra.
Embora saiba que o tempo não existe ainda me dói saber que deverei esperar ainda mais. Quantos anos? Quantos séculos? Quantas encarnações?
Tudo o que passei e sofri para terminar assim?
Qual a coerência? Qual a lógica disso tudo? O que mais dói é saber que ninguém jamais entenderia isso. Lágrimas de fãs, quem me conhece irá dizer.
Poucos sabem de tudo. Raros entendem minha dor.
E eu achava que este vazio de ideias, de textos e sentimentos era em função do inverno. Era em virtude da rotina, do cansaço, do estresse... Sei lá.
Mesmo assim já faz 3 meses que você se foi. É tempo demais?
Fico aqui, tentando buscar os sinais que não percebi, mas, pensando bem para que?
Nem que eu convencesse os anjos eu poderia mudar qualquer coisa. Nada.
Talvez agora o livro saia. Talvez agora eu conte a história. Será?
Você deu rosto a um sonho ou você era a minha memória?
Jamais saberei.
Goodbye my dark Angel.

“…She was never there…
…Only the deaf hear my silent
shouts
Yet in the dark, still he screams your name…
…Autumnal rays
turned your eyes to stone
Did it give you pleasure to steal my soul?
Leave her, Leave her alone
I said leave her alone

Me? I know
why”

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Então o amor é isso



Vi meus pais com olhos de filha a vida inteira.
Desde que me casei, passei a olhá-los com admiração ainda maior e a observar detalhes que antes eu não via.
Pelo casal que são, pela cumplicidade que têm, pelo carinho e compromisso que assumiram ao longo desta história que hoje completa 42 anos.
Um mundo só deles.
Lembro-me criança de ouvi-los conversando à noite no quarto. Creio que os problemas eram tratados sempre longe de nós. Nunca as atrocidades e os agravamentos em questões de orçamento, divergências ou outros assuntos eram discutidos em nossa presença.
Nosso contato um pouco maior era com a mamãe. Ela trabalhava dando aulas, por vezes em mais de uma escola, mas estava em casa aos finais de tarde para o checklist de mãe.
Quase não víamos meu pai. Ele saia para o trabalho muito cedo e voltava bem tarde.
Conseguíamos esperá-lo chegar quando ficamos mais velhas e a quantidade de sono era menor.
Uma lição de vida. As superações, as conquistas. Tudo que os permeia é notável.
Filha orgulhosa tenha certeza.
Amo vocês.
O casamento deles foi a primeira cerimônia na Capela Santíssimo Sacramento em Botucatu.
O vestido de minha mãe foi o mais lindo que já vi. Queria ter me casado com ele, mas não foi possível. O véu era enorme e cobriu toda a nave da capela.
É uma história que você acredita que não daria certo, jamais.
Minha mãe foi noviça por anos e meu pai estava noivo, mas já em vias de rompimento.
Conheceram-se no trabalho vindo de mundos distintos.
Minha mãe foi a primeira mulher a assumir o caixa de uma agência do Banco Itaú e meu pai era chefe de Inspetoria (não me pergunte o que quer dizer).
Conheceram-se, apaixonaram-se, casam-se e eis-me aqui escrevendo as memórias deles.
Seria mais justo que eles o fizessem.
Eles são luz. São exemplo a ser seguido de conduta e dignidade. De amor e cumplicidade.
Descobri o amor através dos olhos deles. A vida, por meio deles.
Amo. Mais que tudo e grata sou por eles. Por tudo.
Parabéns meus amores.
O presente levo amanhã.
Saudades. Sempre.






~ O Amor ~
~ Gibran Kahlil Gibran ~
Então, Almitra disse: “Fala-nos do amor.”
E ele ergueu a fronte e olhou para a multidão,
e um silêncio caiu sobre todos, e com uma voz forte, disse:
Quando o amor vos chamar, segui-o,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos
Como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma que o amor vos coroa,
Assim ele vos crucifica.
E da mesma forma que contribui para vosso crescimento,
Trabalha para vossa queda.
E da mesma forma que alcança vossa altura
E acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
Assim também desce até vossas raízes
E as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma
No pão místico do banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará em vós
Para que conheçais os segredos de vossos corações
E, com esse conhecimento,
Vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor,
Procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
E abandonásseis a eira do amor,
Para entrar num mundo sem estações,
Onde rireis, mas não todos os vossos risos,
E chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio
E nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.
Porque o amor basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga:
“Deus está no meu coração”,
Mas que diga antes:
"Eu estou no coração de Deus”.
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,
Pois o amor, se vos achar dignos,
Determinará ele próprio o vosso curso.
O amor não tem outro desejo
Senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos,
Sejam estes os vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
Que canta sua melodia para a noite;
De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
E de sangrardes de boa vontade e com alegria;
De acordardes na aurora com o coração alado
E agradecerdes por um novo dia de amor;
De descansardes ao meio-dia
E meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes para casa à noite com gratidão;
E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado,
E nos lábios uma canção de bem-aventurança.